quarta-feira, 16 de junho de 2010

PALESTRA: ARTE,EDUCAÇÃO E ARTETERAPIA - O Primado da Imaginação Criativa Na Sociedade Contemporânea




1ª Foto: Poetas e Escritores Argentinos e brasileiros
2ª Foto: Vanda Lúcia da Costa Salles ( Lendo Poemas) e a Organizadora Selene
3ª Foto: Vanda Lúcia da Costa Salles( Palestrante doBrasil) e Silvia Aida Catalán ( poeta, fundadora e Diretora do T.A.A.R. - Alitas de América-Argentina).


ARTE, EDUCAÇÃO E ARTETERAPIA – O Primado da Imaginação Criativa Na Sociedade Contemporânea.


Por : Vanda Lúcia da Costa Salles ( Brasil)*


Dedicado à: ANDREA DE JESUS RESENDE ( in memoriam)



“ Ao inventar a língua nos estamos inventando a nós próprios.
Estamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira,
que dança todas as brisas sem deslocar o seu chão.”

Mia Couto (Moçambique)



“ Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.”

Ivan Junqueira ( Brasil )



Na linha da afetividade e esperando que as palavras (escritas e faladas) sejam melhores que o silêncio, nesse III Encontro Nacional de Narradores e Poetas “Unidos Pelas Letras” BIALET MASSÉ – 2009, é que em nome do T.A.A.R-Alitas de América saudamos a todo o povo argentino, aos poetas e narradores presentes, aos organizadores e a todos àqueles que contribuíram e contribuem para que esse evento seja a expressão da poiese humana.
Por poiese humana, compreendemos o lugar privilegiado do fazer-se humano, ético e estético, abertura do diálogo para a coexistência ante a violenta banalização da vida. Exemplificado pela criatividade artística da brasileira Neles Azevedo que expôs para o mundo seus mil bonequinhos de gelo derretendo-se sob o sol, nas escadarias de Berlim(Alemanha), nesse dia 02/09/2009, simbolizando seres humanos pedindo socorro contra o aquecimento global, principalmente para ¼ da população mundial.
Assim, através de elos intersubjetivos entre ARTE, EDUCAÇÃO E ARTETERAPIA, procuraremos pensar, aqui, o primado da imaginação criativa a serviço da humanização na sociedade contemporânea, aquela vista como um dos Norte da sustentabilidade social e politicamente correta.




Há em língua portuguesa, entre tantos outros, dois inventivos escritores e poetas contemporâneos (cujas epígrafes o demonstram ): o primeiro, o senhor Antonio Emilio Leite Couto, ou melhor, Mia Couto, que com a força de sua criatividade literária, impulsiona a “Última Flor do Lácio”, na valorização da identidade cultural de Moçambique, pais africano de sua origem ( com vinte milhões de habitantes). Em sua posse na ABL- Academia Brasileira de Letras (1998) como escritor correspondente disse: “ quando me pergunto por que escrevo respondo: para me familiarizar com os deuses que não tenho. Para inventar, em mim, meus mortos. Escrevo para fazer de meu tempo moradia divina. Escrevo para ganhar a minha eternidade. O resto não se explica. E o escritor vive do que não se pode explicar.”
Entretanto, o segundo poeta, Ivan Junqueira, brasileiro e acadêmico da ABL, deixando entrever a supremacia da sabedoria e com a força da imaginação criativa de seus versos, no poema “Palimpsesto”( dedicado ao poeta e amigo de Niterói: Antonio Carlos Secchim), cujo significado é “ escritura antiga”, onde cabe uma leitura amorosa e aqui fazemos:



“ Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
sob a grafia seca e austera
algo aflora, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivessem
tudo o que ali, durante séculos
houvesse escrito a mão terrestre.


Sabia o sábio o mistério
jamais emerge à flor da pele,
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:




“Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto”.
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera
com duendes, górgonas e insetos. “



De minha parte, enquanto mulher de meu tempo, escritora e poeta, ouso dizer que escrevo para poder pensar/sentir porque sei que o diálogo para a coexistência através das línguas é o meu universo. Por isso, só por isso, escrevo e me transformo em linguagem. Linguagem que é arte, arte oriunda das asas da imaginação criativa e que engendra a Arteterapia que é na autopercepção, arte da transformação do corpo/alma.
Esclarecemos que por Arte, entendemos a voz intersemiótica ou a bioecolinguística do ser em seu discurso ex-cêntrico. Linguagem plural do imaginário, portanto, poema interior e essencial que impulsiona o indivíduo para a realização do seu projeto existencial que é humanizar-se, isto é, colocar sabedoria e arte em seu projeto de vida.
Isto posto, cabe a pergunta: O que a sociedade exclui? O que baniu do estatuto da norma?
A obra de arte- espaço do sentir e do pensar-, revela: a situação de época, o erro do pensar humano que diz ser o diferente anormal quando sabemos que normal é ser diferente em sua singularidade.
O discurso técnico-burocrático sempre a negar ser o sujeito o real centro de passagem de produção do conhecimento. Esse erro epistemológico que cria a falsa noção de impossibilidade do presente de que a pessoa humana possa ser suprimida em detrimento do mercado globalizado e gerador da padronização cultural –esta, responsável pela cofose generalizada e obliteração ocular profunda da semiose cultural contemporânea.
Em Saberes e Cidadania na Cidade (Artmed,2007), Roger Bunales explica: “ vivemos em uma época que não tem equivalente histórico. Aprendemos que a emancipação social não basta, que a emancipação mental de cada ser humano é necessária para obtê-la e que as relações de dominação do homem pelo homem são a negação da emancipação desejada.”
Ao buscar conscientizar o cidadão da importância de suas potencialidades, coordenado pelo grupo francês de educação nova, disseminam a ideia de que é possível pensar um mundo em que os saberes e a cidadania possam ser tratados com mais inteligência e humanidade.
No contexto social do diálogo, a sugestão é: enfatizar a coexistência de forma coerente e criativa como forma de educação humana. Um sonho? Talvez não, porque ousamos dizer que em O Chamado das Musas-Pô-Ética Humana: O Enigma do Recheio- A Arteterapia ao Sabor da Educação Brasileira, ajudou e nos ajuda a compreender que a arte delira resistência de vida, além de ensinar-nos a importância do conhecimento que é informação, transformar-se em um saber e por sua vez, transformar-se em sabedoria. Porque, como diz o ditado popular, “ o conhecimento ajuda para a vida, mas a sabedoria constrói uma vida”.
O educador, escritor e acadêmico brasileiro Arnaldo Niskier, em “ A Educação para esse milênio” escreve: “ nesse século a educação deverá se basear no desenvolvimento do universalismo científico e tecnológico, meta-síntese do natural desaguadouro da globalização da economia. Virá uma escola multicultural com a garantia plena dos direitos civis nos sistemas educacionais”. Para tanto, entendemos ser o ponto fulcral da Educação hoje, da escola, da universidade e do educador, contribuir para que o aprendente ( seja ele quem for e aonde estiver) possa pensar sistematicamente e ecologicamente, isto é, desenvolver em si uma sabedoria. E sabedoria senhores, somente com pensamento reflexivo, vivência e coexistência.
Este também é o pensamento- síntese do Dr. David Bohm, físico teórico mais importante da atualidade que desenvolveu uma proposta da teoria quântica na forma de uma “ álgebra fermiônica”( tratamento algébrico da duração de como desdobrar o espaço-tempo), e em O Pensamento Como Sistema ( Madras, 2007), afirma ele: “ a palavra torna visível o pensamento que é imagem expressiva do ser. Pensamento é a única coisa que temos para resolver os nossos problemas. Mas somente a sensibilidade deixa ver o que faz sentido e é coerente.”
Confúcio que nasceu na China e viveu entre os anos de 551 e 479 a.C, sabiamente nos ensina: “ Lembra-te sempre de que existes porque antes de ti existiram outros” e alguém imbuído de sonhos e projetos, brincando escreveu a possível fórmula da sabedoria: I = I = C = S = S . Interpretada assim: a Informação ( I) combinada com a Inteligência ( I) resulta no Conhecimento ( C). O Conhecimento ( C) mais a Sensibilidade (S) é igual a Sabedoria (S).
Então senhores, que grassem os sonhos! Que a idéia de impossível do presente, o qual projeto político ideológico não impeça o homem de colocá-lo em situação de crítica permanente. Para que a exclusão da diferença, historicamente comprovada,
A negação da alteridade e a obliteração da crítica social, estes, interditadores da cidadania, não afoguem no marasmo a Democracia (seu perfeito entendimento) , nem dilua da vida suas possibilidades e o humano de nós.
Isto posto, do profundo do coração, mais uma vez, obrigado.






Palestra apresentada no III ENCUENTRO NACIONAL DE NARRADORES Y POETAS- ‘ UNIDOS POR LAS LETRAS’- BIALET MASSÉ-2009, no dia 26 de setembro deste mesmo ano, em Córdoba-Argentina. Com participação da autora na III Antologia com contos curtos.

POESIA: A MARIO BENEDETTI (Mario Orlando Hardy Hamlet Brenno Benedetti Farrugia),- SILVIA AIDA CATALÁN







A MARIO BENEDETTI

Yo te busqué Mario, Hermano.
Allí, por sombras del exilio.
Allí, por canales granates del olvido.
Fui felino siguiendo tus pisadas,
fui noche llorando su alborada.
Yo caminaba en mi tristeza muda,
no podía gritar cuanto sufrías
en los azules tormentos de otros cielos.
Y me quejaba, solita,
vestida de impotencia
cuando llegaba al encuentro
y te habías ido.
Huyendo nuevamente
de los fieros,
de los malos,
de los "Perros".
Hoy, me esperaste Tú,
para el encuentro.
A la luz de todos ¡Ya sin miedos!
Para mirarnos
sentirnos y tocarnos.
Para decirnos a los ojos (por si acaso)
Hoy, por una vez hemos vencido.

Entregado en manos a Mario Benedetti (el original) el día 31 de marzo del 2006,
a las 12:30 PM, en la esquina del Restaurante San José.... y escrito desde algún lugar del exilio. URUGUAY

Silvia Aida Catalán- Argentina Del Libro: COM ALAS DE GAVIOTAS Y ALONDRAS( Creadores Argentino-Alas Rotas; Buenos Airess,2006- pg. 34).
SILVIA AIDA CATALÁN


A MARIO BENEDETTI

Tradução: Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)


Eu te busquei Mario, Irmão.
Ali, por sombras do exílio.
Ali, por canais granadas do esquecido.
Fui felino seguindo tuas pisadas,
Fui noite chorando sua alvorada.
Eu caminhava em minha tristeza muda,
Não podia gritar o quanto sofria
Em azuis tormentos de outros céus.
E me queixava sozinha,
Vestida de impotência
quando chegava ao encontro e partiras
fugindo novamente
das feras,
dos maus,
dos “ Cachorros”.
Hoje, me esperaste Tu,
para o encontro,
à luz de todos.
!Já sem medos!
Para mirarmos
Sentirmos e tocarmo-nos.
Para dizermos aos olhos ( por se acaso)
Hoje, por uma vez : vencemos.

PALESTRA: INTERTEXTUALIDADE E INTRATEXTUALIDADE EM AUTORES LATINOS-AMERICANOS PÓS-MODERNOS - NA UNIVERSIDADE NACIONAL DE SAN MARTÍN-ARGENTINA






1ª Foto: Doutor Alejandro Drewes( poeta da Argentina), Silvia Aida Catalán ( poeta da Argentina)-Fundadora e Diretora do T.A.A.R-Alitas de América, Hilda Interiano de Payés ( poeta de Honduras) e Vanda Lúcia da Costa Salles ( poeta e palestrante do Brasil)
2ª Foto: Profª. Vanda Lúcia da Costa Salles (poeta do Brasil) e Doutor Alejandro Drewes (Argentina) .
3ª Foto: Diploma conferido pela U.N.S.A.N.- Universidade Nacional de San Martín-Argentina.





INTERTEXTUALIDADE E INTRATEXTUALIDADE EM AUTORESLATINOS-AMERICANOS PÓS-MODERNOS.*Por; VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES ( Brasil)
“ No es vano esfuerzo unir la vida de los pueblos.Ni vana lucha la que espera de nos el Deus Poderoso.”(Opertura- SILVIA AIDA CATALÁN )
A vida é arte por excelência. Efêmera, talvez. Entretanto, deve estar no centro das atenções humanas. Ter essa idéia na memória é exercitar a consciência poética. E nós, latino-americanos, o tempo todo isso fazemos, como comprovam nossas obras e lutas, do pleno exercício de vida cotidiana à presença nessa conceituada e histórica Universidade Nacional de San Martín.Um renomado escritor brasileiro, ímpar na artesanaria da palavra, genial e ousado, Machado de Assis, disse certa vez“O tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo,Uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo.Também se pode bordar nada. Nada em cima do invisível é aMais sutil obra deste, e acaso do outro.”No entanto, dizemos quando a alma beija o coração a poesia se revela. Esperando que a poesia se faça revelação e que ilumine a todose que a palavra se faça eterna cúmplice da verdade a busca ao livre pensar.Nos estudos poéticos e arteterapêuticos empreendidos em pesquisas em língua e linguagem, em busca da técnica plena por uma prática de ensino que explicite o essencial no possível proveniente do centro da forma e, o qual denominamos de BIOECOLINGUÍSTICA, embasamo-nos nesses limites dos discursos paralelos tomando por base o brilhante trabalho do professor e escritor brasileiro Gilberto Mendonça Telles, que em seu livro Retórica do Silêncio I – teoria e prática do texto literário esclarece a dificuldade da leitura e escrita na escritura inaugural, “ O silêncio da censura excita o silêncio da cesura e os espaços vazios da linguagem se tornam os poros por onde a liberdade respira e permanece. Ler é fazer falar os silêncios da linguagem (TELLES, 1989, P.17).” Então, procuraremos aqui, fazer falar o silêncio das línguas e de suas linguagens.Ao pensar a intersecção entre linguagem, subjetividade e cultura há que se evidenciar o papel da palavra escrita, que por sua vez, principia em ser a representação do que se convencionou a chamar de linguagem verbal, mas também o ponto fulcral para seestudar, pesquisar e refletir sobre a evolução histórica da humanidade - trabalho eproduto social com comunhão étnica e lingüística em sua plena e justa verdade como comprovam as primícias da linguagem -, como processo e elos em busca da construção da informação, conhecimento e saberes.A língua faz parte de uma cultura, ter falantes e documentação escrita são as bases para que esteja viva e em constante renovação. Portanto, “ a preservação da diversidade lingüística é essencial, pois a língua está no cerne do que significa ser humano” (CRISTAL, 2005).Sabe-se que pela palavra o indivíduo se constrói e se construindo se configura no e com o mundo e para o mundo, isto é, quanto mais se configura como sujeito intersubjetivando-se, mais densidade subjetiva conquista, porque “ a intesubjetividade é a tessitura última do processo histórico de humanização ( FREIRE,1984). E essa tessitura em sua gênese ontológica qualificativa prima pelo “ princípio do respeito à diversidade, às diferenças étnicas, culturais e religiosas no planeta, o qual necessita de reformulações cotidianas nas ações contemporâneas de apropriações dos espaços, do corpo e da língua -, para que a consciência e a razão fundamente o diálogo fundamental, e seja ponte nas relações intersubjetiva “(SALLES,2002). E por sermos seres inconclusos, necessitamosaprender o significado para compreender profundamente a significação da vida e na vida. E isto acontece, mais facilmente, através da arte que também é linguagem e, desvela, revela e transfigura-nos para além das fendas do silêncio das formas claras, energéticas e primordiais.Daí que para pensarmos a exclusão no espaço cotidiano da vida de qualquer cidadão e/ou nas escolas públicas na América Latina e em qualquer parte desse planeta, é fato compreender que “as desigualdades sociais têm origens econômicas e se perpetuam na desigual distribuição da riqueza na sociedade” (SOARES,1996) e na contundente retórica ideológica das classes dominantes exercidas, principalmente, sobre muitas identidades étnicas consideradas minoritárias por àquelas. E ao buscar a memória arqueológica transdisciplinar do saber na história da educação, compartilhamos o que afirma, SOARES“A escola pública não é, como erroneamente se pretende que seja,uma doação do Estado ao povo, ao contrário, ela é uma progressivae lenta conquista das camadas populares, em sua luta pela democratização do saber, através da democratização da escola pública.[... ] diferença não é deficiência. Explica-se pela opressão que essasclasses dominantes, com a mediação da escola, exercem sobre as clasdominadas, através da imposição de sua cultura e de sua linguagem, apresentadas como legítimas” (Ibidem,1996, pp.9 e 55 ).Cabe as camadas populares, cada vez mais, buscar caminhos que dignifiquem em qualidade a escola pública, fundando-se na relação dialógico-dialética entre educador e educando, onde ambos aprendam junto o seu profícuo “diálogo intersubjetivo” (GADOTTI,2001) e espraiem o acesso ao conhecimento, visto que para conquistar, questionar e transformar a cultura e a linguagem impostas pelas classes dominantes, cabe aos professores compreender que“ensinar por meio da língua e, principalmente, ensinar a língua são tarefas não só técnicas,mas também política ( FREIRE,2003)E com isso aprender a construir o seu projeto político-social, tendo em vista que, normalmente os dirigentes públicos se embasam em idéias ditatórias e discriminatórias para afirmar suas posições e ações, quase sempre, em detrimento da maioria da população nacional.Um verdadeiro exemplo de intersubjetividades comunicativas aconteceu em minha prática educativa, que a mim parece, em uma reflexão enquanto educadora e escritora, estar coerente à proposta pedagógica que uso e ouso conceituar de Pedagogia Ex-cêntrica – a que faz uso da paradoxa ao enfatizar às idéias em uma antropofagia transdisciplinar e reivindica a criação da Bioecolingüística e vai ao encontro do que propõe Boaventura Sousa dos Santos para desconstrução da “subjetividade conformada” e da construção da “ecologia do saber”, conforme palestra na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2001) mas também confirma a importância da leitura e escrita , enquanto apropriação cultural na história da humanidade como projeto fundamental para conscientização do lugar do humano no tempo presente. Após trabalhar a intertextualidade e intratextualidade na poética contemporânea através de parábolas, poemas, fábulas , contos e afirmar a necessidade de adquirirmos a técnica precisa para uma performance interpretativa eficaz, o aluno Daniel Nazaré dos Santos (turma 521, do Colégio Municipal Irene Barbosa Ornellas- do bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo,RJ-Brasil-, bairro este considerado a maior favela plana da América Latina), parou a aula, onde eu colocava no quadro o texto: “Quanto Você Vale?” (LEGRAND, 2000) e deu-me um papelucho de bala. Ao parar a aula e ler o texto ofertado, numa inspiração iluminada surgiu a idéia-conceitual da Bioecolinguística e para que servia.Naquele pequeno pedaço de papel de bala adocicada estava escrito a informação sobre o poema mais antigo, provavelmente escrito a 3.500 a. C., num bloco de argila, segundo historiadores informam sobre a pré-história e o aparecimento da escrita na Mesopotâmia ou, talvez, no Egito ( GUINESS WORLD, 2007 ). E dizia assim:O Poema de Amor Mais AntigoNoivo tão caro aoMeu coraçãoDivina é a tua beleza,Doce como mel,Leão tão caro aoMeu coraçãoDivina é a tua belezaDoce como mel. “Percebemos de imediato, que o aluno fizera a intertextualidade com o livro: “Poemas Rupestres”, de Manoel de Barros (BARROS, 2006) que havia comentado em aulas passadas, quando expliquei o que era intercomunicação poética. Pedi que escrevesse o porquê dele ter dado a mim àquele papel e o aluno escreveu o seguinte “ Professora, eu resolvi te dar esse papel de bala porque meu colega comprou a bala e nós dois lemos e gostamos e resolve-mo-lhe dá porque eu achei que ela(você) ia gostar e que ela (você) ia passar no quadro (para os demais alunos)”, entendi logo, que este aluno queria intercomunicar-se, pois intuía os recursos retóricos contemporâneos. Assim, surgiu a idéia desse encontro, aqui, para pensarmos um pouco mais esses, que ouso chamar de LOAVE - loucos objetos amorosos, volúveis e especiais.
DOS LIMITES DA ORIGINALIDADE EM OBRAS DE ARTE : A Estilística é a disciplina que estuda a expressividade de uma língua, isto é, sua capacidade de emocionar mediante o estilo e a construção dessa singularidade. Por estilo, entende-se a maneira própria de cada escritor se expressar e/ou do escritor/leitor fazer discursos paralelos. E por Retórica a arte de elaborar discursos. Colocação da voz, codificada e transcodificada, em arte intencional, sublime na humanização dos signos,para a epifânica intercomunicação.Nos estudos contemporâneos há uma ênfase não mais nas figuras de linguagem somente, mas também, e principalmente, nos recursos retóricos de discursos paralelos que discutem o conceito de originalidade na profundidade do espaço textual. Portanto, a análise de uma obra de arte no Século 21 requer a conscientização das seguintes posturas expressivas e retóricas que permeiam as produções discursivas, conforme tão bem expressa o poema do poeta brasileiro em sua intenção metalingüística ao citar o poeta espanhol e buscar o diálogo com palavras apropriadas do vocabulário poético de Vallejo.
INTERTEXTUALIZANDO CÉSAR VALLEJO
Poema de Antonio Miranda
“vagarían acéfalos los clavos”
CÉSAR VALLEJO
Inventei o verbo aindar
quando ainda havia verbos
e havia caminhar.
Havia idas e regressos
e havia versos a desafiar o tempo e seus retrocessos.
!Tengo el alma clavada por cien clavos…!
vocifera Vallejo com ou sem pregos cravados na garganta
e nas asas seqüestradas.
Ainda havia flores tranqüilas nas madrugadas
e a certeza de arrebóis transcendentes
despertando um morto de sua tumba,
havia dentes, impureza, sóis e um horto havia.
Um morto que voltava às trevas da existência
com as luzes infinitas de seu desprendimento,
substância em clara mutação.
Ainda: apodreciam “sueños que no tienen cuándo”.
Aindando o inútil reverso do Não-ser e sua essência.
(Chácara Irecê, Goiás, 2/7/2006)
RECURSOS RETÓRICOS DE DISCURSOS PARALELOS :No centro do pensamento contemporâneo dá-se a preocupação com a questão da Identidade/Diferença e Memória/Esquecimento, o que também permeia as discussões em Língua/Linguagem e de seus centros e margens periféricas, conforme pensamento no mundo contemporâneo de uma elite do conhecimento. Daí entendermos que, nos tempos pós-modernos, de “vida-líquida” (BAUMAM,2007), carecemos aprender e ensinar a pensar, e não só a construir, principalmente em literatura, as noções intertextuais e intratextuais que estabelecem o diálogo possível entre obras, afirmando ou negando-as e marcando os seus discursos profundamente sob o signo da Identidade/Diferença. Podemos ,então, poeticamente pensar e devanear:
1- DA INTERTEXTUALIDADE: Entende-se por intertextualidade o processo de relacionamento dos diferentes discursos no espaço intertextual, enquanto ponto de cruzamento de vozes polifônicas. Esses cantos paralelos na obra revelam a primazia do intertexto e de seu discurso, profundamente marcado pela literariedade, além de definir outra ótica para o momento de criação poética em sua originalidade discursiva. A alusão, a epígrafe, a paráfrase, o seguir, a citação, a influência, a imitação, o manifesto, o prefácio, são processos que tratam da identidade com uma obra; o pastiche e a paródia são considerados, enquanto processos intertextuais, textos marginais. Negam um texto fonte. Vimos estes processos em Marita Troiano (Peru), Marcela Muñuz ( Chile), Yennes Paredes ( Chile), Patrícia Diaz Bialet (Argentina), Silvia Long-Ohni ( Argentina), Patrícia L. Boero ( Espanha), Milagros Terán ( Nicarágua ), Beatriz Schaelfer Peña ( Argentina), Esthela Calderón ( Nicaragua), Silvia Aida Catalán (Argentina), Cristina Domeneche ) Argentina) Anace Blum (Equador), Corsino Fonte ( Cabo Verde), Alejandro Drewes ( Argentina) e tantos outros. No entanto, percebe-se uma constante preocupação no que toca o aprimoramento e realce da língua num adensamento lingüístico que prima a busca da plenitude em arte. O encontro com a obra-prima.
2- DA INTRATEXTUALIDADE : É quando um texto dialoga com outrotexto ou peça do mesmo autor. Alude, cita ou parodia a sua própriaescritura. Encontramos em Pepetela (África), Manuel de Barros (Brasil), Marilda Confortin ( Brasil), Vanda Salles (Brasil), Mia Couto(Cabo Verde ), Carlos Enrique Ungo ( El Salvador) e Odette Alonso ( Cuba), entre outros que questionam as suas próprias obras ou personagens interculturais.

PROSA POÉTICA: HERANÇA

Foto: Juan Emmanuel Ponce de León e Vanda Lúcia da Costa Salles,
apresentação do livro: La Finitud del Vuelo, no 1º Encuentro Nacional y Internacional " Para Ser Voz En El Silencio"- S.A.L.A.C. - Villa Carlos Paz, Córdoba-Argentina-2010


“ Minha infância sabe:
… de uma ponte que não nos animamos a cruzar
E nos deixou tremendo.”

Luis Alberto Salvarezza



A pedra, como a mão tem escrito alguma história ( uma sabe de matar gigantes, outra arrojada “ livre de pecado” baixa até o Uruguai e se perde na correnteza… Outra é esta, virgen de vozes, que guardo no punho).
As cidades perdem as pedras debaixo do asfalto e esquecem histórias que envelhecem o ouvido. Aquí, aonde o asfalto é somente uma margen azul e as pedras nos cravam nos calcanhares, escutamos suas vozes. Meu pai as ouvia atento. Juntou um punhado delas interesado no azar, e eu as herdei, como também herdei alguns abraços.
Não faz falta invocá-las nas lembranças porque estão intactas sobre a palma de minha mão, também estão intactas suas vozes que invernaram nos pátios de minha casa.
Certa inocência descubro quando escuto as histórias que contam porque não sei se relatam suas histórias ou se elas leem àquilo que está escrito em minhas mãos, contam minha vida e me desconheço em alguns medos que aparecem debaixo da luz do dia…
Sumária a essa herança alguns papeis amarelos adormecidos no armário, prateadas moedas, uma versão do Quixote de La Mancha, também uns irmãos e uma mãe; o amor a minha casa e a meu povo.
Porém as pedras seguem orando, trato de descubrir que do pouco que pude dar-lhe, decidiu levá-lo: talvez um verso, uma imagen silenciosa, uma fotografia de toda a família, ou talvez o vapor luminoso que agora se prende à minha janela e começa a desvendar e a desnudar palabras convidando-me ao diálogo.


Do Livro: PÁTIO DE INFÂNCIA

De JUAN EMMANUEL PONCE DE LEÓN ( ARGENTINA)

Tradução: Vanda Lúcia da Costa Salles

PALESTRA: COEXISTENCIALISMO: Uma Tendência na Poesia Brasileira Contemporânea- Por: VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES











Dedicado à Cleonice Berardinelli, a Thiago de Mello
e a Manoel de Barros, com toda a minha admiração.


" E fizeram o Carnaval!"

Oswald de Andrade (Brasil)


" Apenas o vivo, o pequenino, calado, indiferente
e solitário vivo.
Isso eu procuro."

Carlos Drummond de Andrade (Brasil)



" Um galo sozinho não tece uma manhã:"

João Cabral de Melo Neto (Brasil)







Excelentíssima Presidenta da Sociedade Argentina de Letras, Artes e Ciências- S.A.L.A.C., sala Carlos Paz-Córdoba, Srª Rita Galiasso. Ilustríssimas Senhoras e Senhores poetas, escritores, demais artistas e amigos presentes, é com imenso orgulho e grata satisfação que encontro-me aqui, neste histórico momento, em que coexistimos para além de nossas identidades sociais e culturais, e esperamos, para além da desterritorialização. Saudações poéticas! Em meu nome e em nome do povo brasileiro e em especial, da população do Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, e tantos outros que nestas semanas passadas enterraram seus mortos, devido as chuvas torrenciais em nosso Estado. Principalmente porque sabemos que é o povo de um país que faz com que a língua desse mesmo país se torne referência, através de sua literatura, de um canto festivo, de uma voz que se nega a silenciar, diante de injustiça e desamor, mesmo nos instantes de intensa dor, perda e saudades. De língua para língua, de literaturas para literaturas, de esperanças para esperanças, nossas saudações sinceras.
Nesse final da primeira década do século XXI, observa-se no panorama da poesia brasileira uma nova tendência estética preponderante, apesar da crítica literária no país afirmar o contrário.
Olhando com a devida atenção e profícua leitura, principalmente, dos mais expressivos representantes do estilo de época Modernismo ( que vai de 1922- a 1945, com Oswald de Andrade, a Carlos Drummond de Andrade e a João Cabral de Mello Neto), do Pós-Modernismo ( que vai de 1950 a 2000, com Augusto de Campos, Décio Pignatari, e Paulo Leminski ), visualizaremos um Coexistencialismo ( que se inicia em 2001 - até os dias atuais) despontando na poesia enquanto estética ( e ousamos dizer, na prosa também). Por Coexistencialismo entendemos a Escola Literária que trata do que é coevo em arte e da coexistência interculturais, cujas características principais destacamos:

a) gêneros híbridos ( os gêneros se misturam);

b) consciência da importância da preservação da língua e linguagem dos povos;

c) ênfase para a sustentabilidade do conhecimento, visto como meio ambiente, além de patrimônio cultural da humanidade;

d) uso constante de intertextualidade e intratextualidade;

e) a poesia em intenso diálogo com outras linguagens, tais como; cinema, teatro, escultura, música, pintura e/ou multimídia;

f) neo-humanismo;

g) aprimoramento estético profissional ( poetas e escritores tornam-se cada vez mais, mestres e doutores em poética, linguística, literatura comparada, humanidades e artes);

h) noção de poiese humana como o lugar privilegiado do humano ético e estético em abertura para a coexistência no tratamento da palavra e da imagem ou hipertextos.

As epígrafes citadas e seus autores, de certo modo, contextualizam o que se aproxima e diferencia a poesia brasileira contemporânea, onde nomes como: Manuel de Barros, Maria do Carmo Ferreira, Vanda Lúcia da Costa Salles, Adélia Prado, Ferreira Gullar, Francisco Alvim, Geraldo Carneiro, Vicente Franz Cecim, Thiago de Mello, Arnaldo Antunes, Antônio Cícero, Alberto Pucheu, Millor Fernandes, Antonio Carlos Cechim, Leonardo Froes, Alex Varella, Antonio Mariano de Lima, Alice Daniel, Maria Esther Maciel, ana miranda, suzana Vargas, Ivan Junqueira, Paulo Becker, Ulisses Tavares, Victor Colonna, Carlos Queiroz Telles, Angela melim, Adriano Espínola, João de Jesus P. Loureiro e João Pedro Roriz, apenas para citar alguns, dos mais de dez mil e setecentos poetas já catalogados no país, pois fazem a diferença e contribuem através de suas sensibilidades e trabalho árduo para que a Poesia na Literatura Brasileira seja sempre esse vivo pulsar em Língua Portuguesa.
A língua portuguesa e suas literaturas, senhoras e senhores, oficialmente é falada e escrita em oito países: Timor-Leste ( na Ásia), de Fernando Sylvan, de Luís Cardoso e Afonso Busa Metan; Cabo Verde ( em África), de Vera Duarte; Guiné-Bissaú ( em África), de António Baticã e Odete Semedo; Angola ( em África), de Ana Paula Tavares, João Maimona e José Eduardo Agualusa; Moçambique ( em África), de Mia Couto ; São Tomé e Príncipe ( em África), de Conceição Lima e Francisco José Tenreiro; Portugal ( na Europa), de Adília Lopes, Jorge Neto de Melo, Ana Luisa amnjaral e Ana Paula Inácio; e Brasil ( na América do Sul), com mais de 250 milhões de cidadãos falantes, e das 13 contribuições de palavras internacionalizadas que a língua portuguesa contribui, a maioria vem do Brasil, e são elas: sertão, favela, cerrado, samba, macumba, novela, cachaça, caipirinha, Pitu, rodízio.
Coexistir, senhoras e senhores, é verbo intransitivo e significa existir simultaneamente, relações de coexistência entre homem e meio em que vive, e/ou visão intercultural, cuja noção de identidade social e cultural busca aprimorar e coexistir ao incorporar valores de realidade distantes, isto é, pensar o que se convencionou chamarmos de desterritorialização.


* Palestra realizada no !º ENCUENTRO NACIONAL Y INTERNACIONAL " SER VOZ EN EL SILENCIO"-2010- S.A.L.A.C. , VILLA CARLOS PAZ, CÓRDOBA-ARGENTINA ( Abril de 2010).

sábado, 12 de junho de 2010

POESIA: IBIS






uma romã
caiu
entre o rumorejo do mar
e a sede espumosa da areia...



quixotesca
um Íbis irisada à luz
trêfega de sol
observa o entardecer ...


( pousada no gradil da ponte o infinito anseia )



estilosa
alça um voo rasante
beija a romã
e rasga
o imaginário do poeta




Do Livro: NÚNCIA POÉTICA (2010),

VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES

POESIA: DE (S) GRAÇA,


A você : Leitor desavisado



um S.O.S
conta a mina
sobre o impacto ambiental
instou-se o alarme geral
fogem/correm
aves peixes e tartarugas
se não morrem
um borrelho-de-coleira-interrompida pia
patina o pelicano-marrom e pato-da-Flórida grita
o pelicano alucinou e trisna em dor
a pérola negra no mar abocanha, sem graça. De(s)graça pouca, a louca
da garça-de-garganta-vermelha afunda pedra
no óleo uma andorinha-do-mar-real se contamina
há entrega, entre humanos mudos e sujos e deteriorados,
algas e plâncton deter (minam)
o impacto ambiental...
um S.O.S algoz
Silen (Cia) :
nem
mais
um
pio
!



Do Livro: DA APRENDIZAGEM... DAS ASAS,

VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES